Passagem de guarda no Jiu-Jitsu: os 8 tipos principais e quando usar cada um

Passar a guarda é transpor as pernas do adversário e chegar ao controle transversal ou longitudinal, segurando a posição por 3 segundos. Pelo regulamento oficial, isso vale 3 pontos. As oito passagens que cobrem a maior parte do jogo de cima são toreando, knee cut, over under, emborcada, arrastão, crazy dog, X-pass e passagem da meia-guarda. A escolha entre elas não é preferência pessoal, é resposta: cada guarda que o adversário monta fecha algumas portas e abre outras.
Este guia separa as oito por nome, por guarda-alvo e por estilo, e acrescenta em cada uma o campo que quase nenhum material traz: a reação mais provável do adversário. Saber a técnica é metade. A outra metade é saber o que vem depois dela, porque é ali que a maioria das passagens morre. Tudo o que envolve pontuação foi conferido no Manual de Regras da IBJJF e da CBJJ em português, versão 6.1 de junho de 2024. Última atualização: 8 de agosto de 2026.
O que você vai ver neste post
- A tabela das oito passagens
- Passagem toreando
- Passagem knee cut
- Passagem over under
- Passagem emborcada
- Passagem arrastão
- Passagem crazy dog
- Passagem X-pass
- Passagem da meia-guarda
- Como escolher a passagem certa contra cada guarda
- Passar em pé ou de joelhos
- Perguntas frequentes
A tabela das oito passagens
Antes dos detalhes, o mapa. A coluna “pressão ou velocidade” é a que mais importa na hora de montar repertório: a passagem que resolve o guardeiro pesado que fica de costas no chão não é a mesma que resolve o guardeiro elástico que senta e busca a pegada.
| Passagem | Funciona melhor contra | Quando costuma entrar no repertório | Pressão ou velocidade |
|---|---|---|---|
| Toreando | Guarda aberta sentada, De la Riva, aranha | Faixa branca | Velocidade |
| Knee cut | Meia-guarda, guarda aberta com a perna na frente | Faixa branca | Pressão |
| Over under | Guarda aberta com o adversário de costas no chão | Faixa azul | Pressão |
| Emborcada | Guarda fechada recém-aberta, quadril próximo | Faixa branca | Pressão |
| Arrastão | De la Riva, guarda X, pé no bíceps | Faixa azul | Velocidade que vira pressão |
| Crazy dog | Meia-guarda com escudo de joelho | Faixa azul | Pressão |
| X-pass | Guarda aberta com os dois pés em você | Faixa branca | Velocidade |
| Passagem da meia-guarda | Meia-guarda e meia-guarda profunda | Todas as faixas | Pressão |
Uma observação de regra muda como você lê essa tabela: o regulamento define guarda pelo uso de uma ou das duas pernas para impedir o controle transversal ou longitudinal. Transpor a meia-guarda pontua igual a transpor a guarda completa, e transpor pernas que não estão te impedindo de nada não pontua. O detalhamento do que valida e do que anula a marcação está em passagem de guarda vale quantos pontos.
Passagem toreando
O toreando (também escrito toureando) é a primeira passagem de velocidade que quase todo mundo aprende, e continua sendo usada em final de mundial. Serve contra guarda aberta sentada, De la Riva e guarda aranha depois que as pegadas caem.
Dois detalhes decidem se ela funciona. O primeiro é onde você segura: as duas mãos na calça, na altura dos joelhos, com os braços esticados e os cotovelos travados. Segurar no tornozelo encurta a alavanca e devolve o quadril para o adversário. O segundo é que a passagem acontece com os pés, não com os braços. Você joga as duas pernas dele para um lado e anda para o lado oposto, e o peito desce assim que você cruza a linha dos joelhos.
O erro comum é passar largo, correndo em volta das pernas sem baixar o quadril e o peito. Fica bonito e o adversário recompõe no meio do caminho. A reação mais provável do adversário é uma de duas: inverter por baixo para recuperar a guarda, ou virar de quatro e buscar a tartaruga. Quem treina só a entrada trava toda vez que o outro reage, e reagir é o que ele sempre vai fazer.
Passagem knee cut
A knee cut, ou passagem cortando o joelho, é a passagem de pressão mais universal do jiu-jitsu moderno. Ela resolve meia-guarda e resolve guarda aberta quando o adversário deixa uma perna à sua frente.
O primeiro detalhe é o mais ignorado: a knee cut não começa no joelho, começa no braço. Sem o underhook do lado de fora ou sem uma pegada na lapela que mate o quadro do adversário, cortar o joelho vira uma corrida em que ele chega antes. O segundo detalhe é a diagonal. O joelho desliza sobre a coxa em direção ao ombro oposto, e o peso do seu tronco vai junto, não fica para trás.
O erro comum é cortar cedo, antes de matar o escudo de joelho. Aí a canela dele entra no seu quadril e você fica preso na metade, ajoelhado dentro da meia-guarda. A reação mais provável do adversário é buscar o underhook do lado de fora e subir no single leg, ou reinserir o escudo de joelho. As duas têm resposta pronta: no primeiro caso, você troca de lado ou passa a mão para o over under; no segundo, você desce a pressão e migra para o crazy dog.
Passagem over under
O over under é a passagem de quem decide a luta no cansaço do outro. Funciona melhor quando o adversário está de costas no chão, quadril baixo, jogando guarda aberta sem sentar.
O nome descreve a mecânica. Um braço passa por baixo de uma coxa e o outro por cima da outra, com pegada na calça ou na faixa. A cabeça vai para o lado do braço de baixo, colada no quadril do adversário, e é ela que impede a recomposição. O segundo detalhe é a caminhada: você passa andando para esse mesmo lado, empurrando o joelho daquela perna em direção ao chão, sem nunca ficar de frente.
O erro comum é manter o quadril alto e o peito longe. O over under é posição de peso, não de alavanca: se sobra espaço entre o seu peito e a coxa dele, a canela entra e a posição acaba. A reação mais provável do adversário é encaixar um quadro no seu ombro e mergulhar para a meia-guarda profunda. Não é desastre, é bifurcação conhecida: dali sai pegada de costas mais vezes do que sai raspagem.
Passagem emborcada
Emborcar é passar controlando as duas pernas do adversário sem levantar, empilhando os joelhos dele em direção ao próprio rosto. É uma das passagens mais antigas do jiu-jitsu e continua funcionando igual. Serve logo depois de abrir a guarda fechada e contra guarda aberta quando o quadril dele está perto de você.
Os dois detalhes são postura e direção. Postura: você sobe nas pontas dos pés e caminha para a frente, de forma que o peso venha do seu corpo empilhado, não da força dos braços. Braço dobrado emborcando é receita de lombar detonada. Direção: você sai para o lado oposto ao que os ombros dele apontam, nunca pelo meio.
O erro comum é emborcar pelo centro, com o adversário confortável e alinhado. É exatamente o ângulo em que ele te dá a omoplata ou o triângulo. Vale um aviso que não é técnico: emborcada é pressão em cima do pescoço do seu companheiro de treino. No treino, ela se ajusta, se comunica e se solta. A reação mais provável do adversário é girar o quadril para sair pela lateral, e a resposta é acompanhar o giro em vez de insistir na pressão frontal.
Passagem arrastão
O arrastão, também chamado de leg drag, é a passagem que domesticou as guardas modernas. Contra De la Riva, contra guarda X e contra qualquer guarda em que o adversário coloca o pé no seu quadril ou no seu bíceps, é a resposta mais direta.
O primeiro detalhe é que arrastar não é o objetivo, é o meio. Você puxa a perna dele atravessada na sua linha de centro e cola o seu quadril na parte de fora da coxa dele, no chão. É esse encaixe que mata a rotação, não a força do puxão. O segundo detalhe é a pegada longe: faixa, lapela ou calça do lado oposto. Sem ela, sobra a inversão.
O erro comum é ficar de frente atrás da perna arrastada, sem colar o quadril: o espaço que sobra é exatamente o que ele precisa. A reação mais provável do adversário é inverter por baixo, rolando para recuperar a guarda, e quem tem essa reação mapeada não trata a inversão como problema: trata como entrada de costas.
Repare no padrão: toda passagem tem uma resposta esperada, e a resposta esperada tem um caminho. É isso que separa quem tem repertório de quem tem coleção de técnicas soltas. O editor visual do GamePlan BJJ existe para isso: você desenha a passagem, a reação provável e a sua saída para cada uma, e no modo narrativa treina a decisão antes de precisar dela no round.
Passagem crazy dog
A crazy dog é mais conhecida pelo uso do que pelo nome: é a preferida de quem passa meia-guarda com escudo de joelho e de muito faixa-preta veterano que já não quer disputar velocidade com azul de 22 anos.
O detalhe que define a posição é a pegada cruzada: com um braço só, você controla as duas pernas do adversário, o que deixa o outro braço livre para controlar a postura e neutralizar os quadros dele. É isso que a separa de uma pressão genérica de meia-guarda. O segundo detalhe é a altura: peito baixo sobre as pernas, cabeça perto do chão, quadril empurrando para a frente. A passagem termina com a caminhada do quadril, não com o braço.
A reação mais provável do adversário é tentar recompor com a perna de cima, e a resposta clássica é fechar no leg weave. A segunda é virar de quatro para a tartaruga, e aí o caminho é a pegada de costas. Para aprofundar, o sistema de passagem crazy dog de Isaac Doederlein, faixa-preta de Rubens Cobrinha, cobre a posição inteira.
Passagem X-pass
O X-pass é o primo veloz do toreando, e resolve o guardeiro sentado que mantém os dois pés em você. O nome vem do desenho: você empurra uma perna dele por cima da outra e cruza as duas, formando um X.
O primeiro detalhe é que o X existe por um instante. Cruzar as pernas desliga por um segundo a capacidade dele de usar a perna de baixo, e é dentro desse segundo que a passagem acontece. O segundo é a direção do passo: você sai pelo lado de fora da perna que ficou por cima e desce o ombro assim que cruza a linha do quadril.
O erro comum é empurrar as pernas para um lado e caminhar para o mesmo lado, entrando de novo na frente da guarda. A reação mais provável do adversário é liberar a perna de baixo e sentar de novo, o que vira uma disputa de repetição em que quem cansa primeiro decide. Por isso o X-pass costuma ser encadeado com o toreando, não usado sozinho.
Passagem da meia-guarda
A meia-guarda merece seção própria porque transpor a meia-guarda vale os mesmos 3 pontos e porque é a guarda onde mais luta se decide hoje. Aqui não existe uma técnica, existe uma disputa: a do underhook.
O primeiro detalhe é reconhecer isso. Quem consegue o underhook do lado de fora dita o que vem a seguir. Se é você, o caminho é a knee cut, a esgrima ou a crazy dog. Se é ele, a sua prioridade deixa de ser passar e vira recuperar a pegada ou trocar de lado. O segundo detalhe é a perna presa: ela sai por esgrima, cruzando o pé livre por cima, ou pelo corte de joelho, quase nunca por força.
O erro comum é insistir em arrancar a perna presa enquanto o adversário tem o underhook e o escudo de joelho encaixados. A reação mais provável do adversário é mergulhar para a meia-guarda profunda ou subir no single leg, as duas reações que mais tiram passador de cima em campeonato.
Como escolher a passagem certa contra cada guarda
A escolha começa por uma pergunta que quase ninguém faz em voz alta: qual guarda ele monta quando está confortável? Passar guarda é responder a um plano que já existia antes de você chegar. Se ainda não sabe qual é o seu lado nessa disputa, o texto sobre guardeiro ou passador ajuda a nomear o que já acontece nos seus rounds.
| Guarda do adversário | Passagens que mais funcionam | Por quê |
|---|---|---|
| Guarda fechada | Nenhuma, primeiro se abre | Não existe passagem de guarda fechada, existe abertura e depois passagem |
| Guarda aberta sentada | Toreando, X-pass | Ele precisa dos dois pés em você, e velocidade tira os dois de uma vez |
| De la Riva | Arrastão, toreando | O gancho morre quando a perna atravessa a linha de centro |
| Aranha e laçada | Quebra de pegada, depois toreando ou knee cut | Enquanto as mangas estiverem presas, nenhuma passagem começa |
| Meia-guarda | Knee cut, crazy dog, over under | A disputa é de underhook e de pressão, não de espaço |
| Escudo de joelho | Crazy dog, over under | Precisa de uma passagem que controle as duas pernas com pouco espaço |
| Guardeiro deitado de costas | Over under, emborcada | Quadril baixo pede peso, não velocidade |
Passar em pé ou de joelhos
A busca por “passagem de guarda em pé” costuma esconder outra pergunta: por que eu apanho tanto de joelhos? De joelhos, o seu quadril está dentro do alcance dos ganchos, dos pés e das pegadas de perna do adversário. Em pé, você tira o quadril desse alcance e devolve a ele o trabalho de te alcançar.
Isso não faz da passagem em pé a melhor opção sempre. Em pé você fica mais exposto a raspagens de perna e a entradas de pegada de tornozelo, e perde a pressão que ganha uma luta contra guardeiro paciente. A distinção útil é outra: guarda fechada se abre em pé, com postura, quase sempre. Guarda aberta se passa em pé quando o adversário é móvel e de joelhos quando ele já está achatado. Toreando, X-pass e arrastão nascem em pé. Over under, emborcada e crazy dog nascem no chão.
Nenhum desses parágrafos substitui a aula. Ver o nome da passagem escrito não coloca ela no seu jogo: quem corrige o seu ângulo de joelho, a sua pegada e o seu tempo é o professor, no tatame, com você errando na frente dele. O mapa é complementar, e mostra onde o jogo trava e para qual reação do adversário você ainda não tem resposta.
O GamePlan BJJ tem catálogo por faixa e templates de campeões, para importar um jogo de passagem inteiro e adaptar ao seu, além de sugestões táticas por IA que apontam os buracos do fluxo. Dá para ver os planos e montar o seu primeiro fluxo e levar as dúvidas para o próximo treino.
Perguntas frequentes
Passagem de guarda vale quantos pontos?
Passagem de guarda vale 3 pontos pelo regulamento da IBJJF e da CBJJ. Para marcar, é preciso transpor as pernas do adversário (guarda ou meia-guarda) e manter o controle transversal ou longitudinal por 3 segundos. Se ele não estiver usando as pernas para impedir esse controle, não há guarda nem pontuação. O detalhamento aparece no guia de pontuação no jiu-jitsu.
Qual a melhor passagem de guarda para faixa branca?
Toreando e knee cut. Uma de velocidade e uma de pressão, as duas com pouca exigência de flexibilidade e com aplicação imediata nas guardas que aparecem nos primeiros meses. Aprender as duas em paralelo ensina cedo a diferença entre tirar o quadril do alcance e ocupar o espaço com peso.
Como passar a guarda fechada?
Não se passa a guarda fechada, se abre. A sequência padrão é recuperar a postura, sentar sobre os calcanhares com uma mão no quadril ou na faixa, levantar em pé com a coluna alinhada e abrir os pés dele com pressão de joelho ou de cotovelo. Só depois entra a passagem, em geral toreando, emborcada ou knee cut.
Como passar a guarda De la Riva?
O caminho mais direto é o arrastão. O gancho de De la Riva depende da rotação do quadril do adversário, e a perna atravessada na sua linha de centro, com o seu quadril colado do lado de fora da coxa dele, elimina essa rotação. O toreando também funciona, desde que a pegada suba para a altura dos joelhos e o gancho saia antes do primeiro passo.
É melhor passar a guarda em pé ou de joelhos?
Depende da guarda do adversário. Em pé você tira o quadril do alcance dos ganchos e das pegadas de perna, o que é vantagem contra guardeiro móvel e praticamente obrigatório para abrir a guarda fechada. De joelhos você ganha pressão, o que rende mais contra quem já está achatado de costas. Um repertório completo tem passagem dos dois tipos.


